Por que algumas pessoas que se julgam fora dos grupos de risco acham que podem reivindicar para si a Eucaristia, que as igrejas estejam abertas e que haja celebrações com as pessoas que “não apresentam risco”? Quem vai fazer a seleção na entrada?
Que vai estar na porta para mandar de volta para casa o idoso, o cardíaco, o diabético, o fumante e outros dos grupos de riscos que teimosamente desejarem participar? Quem não levar sua máscara e seu álcool vai ser excluído da “sadia” assembleia celebrante? Quem garante para si mesmo que o vírus inexiste na sua exuberante saúde aparente? Vale passar na igreja de carro ou a pé e pegar “seu pedaço” de Eucaristia e ir embora, sem celebração, sem assembleia litúrgica, sem saborear a vida comunitária celebrante?
Estas perguntas parecem não terem sido feitas por piedosas pessoas famintas de Eucaristia, que tentam se enquadrar nos grupos seletos que podem celebrar e comungar nas igrejas. A piedade eucarística destes irmãos autoriza que haja castas que podem e castas que não podem comungar nesta hora (processo seletivo espiritual das espécies). O princípio da igualdade – ninguém pode – não seria mais justo e bíblico? “Viviam unidos e tinham tudo em comum”. Unidos na privação e em comum a mesma tristeza e fome de não celebrar a Fração do Pão.
A postura de certos grupos da Igreja e de pessoas com discursos de “saudade de Eucaristia” leva a esquecer exatamente dos patriarcas da fé, os mais velhos; a desconsiderar os mais frágeis, os doentes de doenças graves e crônicas; a criar uma Igreja dos “sadios” e dos “outros”. Numa possível fome em casa, só os mais novos comerão do pouco existente na dispensa, deixando morrer de fome primeiro os mais velhos? Ou comerão todos um pouquinho do que ainda resta? O pouquinho do que ainda resta é a “comunhão espiritual”. Todos comem deste “pouco” mesmo que insuficiente para matar e saciar completamente a fome espiritual da Eucaristia. Mas todos igualmente! Novos e idosos, sadios e doentes, santos e pecadores, os de comunhão diária e os de comunhão dominical. Sem seleção espiritual, sem “eugenia espiritual”!
